O aprendizado está só começando

Enfim, Paris!

Se você começou a ler agora, eu recomendo que vá pro começo, lá no primeiro post. Se acompanhar a história toda vai mais do que entender, mas se envolver e viver junto comigo esse momento importantíssimo da minha vida.
Uma das coisas que decidi ao escrever, foi que esse diário não seria somente para relatar fatos, lugares, imagens ou dicas de viagem, mas compartilhar sentimentos, emoções e vivências. Lê do começo que você vai entender.
 …
Pronto? Agora vamos continuar… rs
Enfim, Paris!
Nesse momento estou sentindo um misto de cansaço, felicidade e raiva… Pois é. Essa última você não esperava na lista, né? Mas infelizmente é a que está predominando. E eu vou explicar o porquê.
CANSAÇO:
A gente já sabia que a viagem até aqui não seria fácil. Saímos de casa na sexta às 17:30h para chegar com a antecedência necessária para o vôo das 22;20h. A previsão era chegarmos em Paris somente no domingo às 6h da manhã por causa da escala de quase 12h em Nova Iorque (que também comentei no primeiro texto).
Tudo correu como o planejado. Em Nova Iorque a fila de imigração é I.MEN.SA. Embarcamos por volta de 7h e só conseguimos sair do aeroporto mesmo quase 10h.
Pausa para comédia.
Descobri que anos de escola de inglês foram jogados no lixo… Quando as pessoas falam comigo eu fico completamente muda. Não sai nada.
Depois de entregar o passaporte, o cara da polícia federal olhou pra mim e perguntou:
Eu entendi a pergunta, mas fiquei olhando pra ele completamente m.u.d.a. Meu marido percebeu o constrangimento e respondeu rapidamente.
É tão trágico que ficou cômico. kkkkkk Rimos demais disso!!
Tô tentando convencer meu marido a falar só em inglês comigo durante a viagem pra ver seeu desbloqueio, mas ele não quis brincar. 😛
Deixamos nossas malas no guarda volumes do aeroporto, pegamos o air train (tipo um metrô que circula dentro do próprio aeroporto) que tem ligação com linha de trem. Lá compramos passagem para a estação em Manhattam, exatamente no ponto que a gente queria ir.
Ao mesmo tempo que a gente estava achando tudo muito normal, também tinham coisas muito interessantes. Como a voz do cara do trem, eles anunciam as estações com uma voz parecendo narrador de futebol americano, engraçado. Na saída da estação, quando chegamos na 34th, me senti dentro de um filme americano. Como americano é caricato!! É uma cena bem difícil de explicar. E como o assunto agora é cansaço, vou pular essa parte e, caso você ainda não tenha ido em ny no verão, vou deixar aqui em aberto pra você mesmo tirar suas impressões, quando tiver oportunidade.
O plano era conhecer rapidamente a Time’s square, tirar foto e depois comprar algumas coisas na Macys e voltar correndo pro aeroporto. Só tínhamos 2h pra gastar lá, ou seja tínhamos que fazer milagre com o tempo. Pegamos o metrô. Que choque! Não imaginava que o metrô de NY fosse tão sujo e mal sinalizado. Até os turistas americanos estavam passando um perrengue pra entender o metrô e não tinha absolutamente ninguém pra ajudar, inclusive um interfone que ninguém atendia. Na dúvida, arriscamos e deu certo. Fotos tiradas, fomos a pé para a Macys pela Broadway. Caminhada gostosa, se não fosse o cansaço das horas de carro + aeroporto + avião + aeroporto + air train + trem + metrô. Meu pé já estava latejando e eu estava com muita fome.
Fiquei embasbacada com o tamanho da Macys… Um universo do consumo!!! o que já é mais barato do que no brasil, ainda estava em liquidação: 30, 50, 70% de desconto.
Queria ter levado muito mais dinheiro, ter muito mais tempo e outra mala enorme e sair comprando como uma louca. Mas a real: A gente levou um cartão de crédito, mas esqueceu a senha! ahhhhhh… morri. Compramos algumas coisas que dava com o dinheiro que a gente tinha na doleira.
Pra conseguir me comunicar com o meu bloqueio no inglês tive que ir, no primeiro momento, com marido a tiracolo. Pedi pra ele falar tal coisa e a vendedora respondeu: “Se preferir, posso falar português.” Gente, quase abracei a mulher de tão feliz de ouvir isso. rsrsr Quem gostou mesmo foi o maridão que ficou liberado de mim e pôde ver a parte masculina sozinho.
Ps: dentro da macys tem wifi gratuito, então a gente se comunicava pelo messenger pra saber onde cada um estava.
Aprendi o truque. Já chegava dizendo que não falava inglês e deixava eles resolverem quem ia me atender. Percebi que brasileiro está com tudo lá fora. Eles ficam loucos pra gente gastar e por isso estão aprendendo a falar português. Uma das vendedoras que falava super bem, disse que aprendeu com uma amiga pra poder atender as clientes. Achei o máximo!
Tempo esgotado. Fomos correndo,  literalmente, até uma loja de câmeras pra comprar uma lente especial e de lá pegamos um taxi de volta pro aeroporto.
A essa hora eu já estava mancando. Apesar de ter ido com o calçado mais confortável que eu tinha, meu pé não aguentou. Tava vermelho, dolorido, latejando e machucado. Sem contar a fome!
O taxista era árabe, com turbante, fungava e mexia as mãos o tempo todo, como se tivesse conversando com alguém em pensamento.
Despachamos as malas novamente, fomos pro embarque. Comi um croissant em pé na fila.
Aí vem a parte fora da programação:
Dentro do avião, grande espera. Alguma coisa estava errada. O avião começou a andar na pista para se dirigir para decolagem. Parou. Continuou parado.
Anunciaram que estavam com problemas e que iriam encostar de novo, até resolver.
Resumo:
Tivemos que sair para troca de aeronave. Mais de 5h de atraso… Algumas no aeroporto, e mais um tantão dentro da outra aeronave que também demorou muito, mas muito mesmo, para decolar. Nessa hora eu já estava desmaiada. Mal conseguia conversar.
Chegamos no aeroporto de Paris quase 11h da manhã. Pegamos um ônibus (já tínhamos comprado as passagens no Brasil) até a estação Gare de Lyon, que é perto do hotel. Foram mais 1:30h de viagem.
Da estação Gare de Lyon andamos 300m até o hotel.
FELICIDADE
Cheguei estrupiada, borrada, descabelada e mancando de verdade. Minha meia sumiu no avião, tive que calçar a bota (troquei de sapato no aeroporto antes de embarcar), pegando nos machucados, sem contar que meu pé estava inchado e não consegui fechar o zíper. Mesmo com tudo isso, MUITO FELIZ!
Enfim, Paris!
Me sinto em casa!! No aeroporto, o banheiro mais parecia uma galeria de arte. Em todo lugar, no pouco que vimos até agora, a cultura transpira.
O hotel é uma fofura. Pequeno, mas lindo. O wifi funciona perfeitamente.
E pra mim as 2 coisas mais importantes: cama e chuveiro, perfeitos.
Enfim, Paris!
RAIVA
Apesar de feliz…
Cansaço + fome + expectativa = fórmula garantida para o mau humor. Imagina duas pessoas assim.
Se tem uma palavra que sustenta ou arrebenta um casamento é essa: COMUNICAÇÃO. Ela dá o tom da relação. E o negócio tava assim: um fala “abacaxi” e o outro responde “televisão”. Sem nexo e sem rima.
No começo estava engraçado. A gente chegou querendo carregar os aparelhos eletrônicos ele tava preocupado com a diferença de plug e a necessidade de adaptador. Eu disse que não precisa de adaptador. Ele não acreditou em mim e nem se deu o trabalho de testar. Mandou mensagem pra um amigo perguntando,  nem esperou a resposta e foi na recepção com o carregador pra pedir adaptador. Enquanto ele foi, eu simplesmente abri a mala, pequei um cabo e pus na tomada. Ele voltou com a cara mais sem graça do mundo. Combinamos de explicar pra moça que somos descendentes de português,  e demos risadas.
Foi a única situação engraçada, todas as outras foram tensas. Eu pedia pra ligar o ar, ele abria as janelas…. Tudo do contra.
 E por aí, foi indo, como palha na fogueira…
Além da fórmula cansaço+fome+expectativa,  3 coisas foram cruciais pra situação piorar.
Fomos numa brasserie perto do hotel  (já eram quase 18h e só tínhamos tomado um café da manhã mixuruco no avião às 9h da manhã). Eu pedi o prato mais barato pra experimentar e ele um dos mais caros. Depois pediu sobremesa. E na volta parou num mercadinho pra comprar coisas pra “janta” pq disse que ia sentir fome ainda.
Em menos de 2h ele gastou toda a verba de um dia inteiro e não comeu a “janta” que vou ter que jogar fora porque no quarto não tem frigobar.
Imagina minha felicidade… #soquenão
Espera que vai piorar…
Comunicação nível faixa de gaza, nada da gente conversar sobre a programação de amanhã…
Tomei a iniciativa. Fomos ver que metrô pegar, etc…
Até que descobri que, na dúvida entre dois passeios de ônibus de turismo, ele fechou com a empresa que não faz o passeio completo, e não vai no lugar que eu mais quero conhecer, que é o bairro da Amelie Poulain. Aí o bicho pegou, a vaca foi pro brejo, o leite entornou… Desliguei tudo, virei pro lado e não quis mais conversa, porque não quero estragar mais nada.
Parece uma boa solução, mas não é. Por dentro, tô com muita raiva!!! Era um passeio importante pra mim e ele sabia disso e não prestou atenção.
Aí os pensamentos brotam: Não quero nem saber… Amanhã vai cada um pra um lado, não vou deixar ele estragar minha viagem dos sonhos… E a partir de agora, a gente divide o dinheiro que a gente trouxe, que é mais do que suficiente, se for bem usado. Agora a gente divide, cada um vai pagar o que comeu. Se no final da viagem ele não tiver mais um tostão, problema dele, é só não comer, mas não vou deixar ele gastar tudo na primeira semana e no final estamos os dois passando aperto. Não vou deixar isso acontecer, não mesmo!
Parece que eu tô exagerando?? Então, vou te dar um pouco mais de informação:
Antes da viagem, fomos na Fnac de São Paulo comprar um guia de Paris. Enquanto ele estacionava o carro eu entrei e separei vários guias pra gente escolher. A gente já tava um pouco estressado com alguns detalhes da pré viagem. Ele sentou do meu lado, pegou um guia folheou, deixou de lado, levantou e foi pegar uma revista de designer de carro…
… Oi? …
Respira fundo.
De novo…
– Já escolheu o guia?
– Já.
– Uê, então vamos embora.
– Se você vai implicar comigo só porque eu estou vendo outra revista, então vamos.
E saiu pisando duro.
Chegando em casa descobri que o guia que ele comprou era o mais caro de todos da livraria e que a merda do mapa, não tinha a região do hotel onde a gente ia ficar, nem o bairro da Amelie que, como eu disse,  era o ponto mais importante da viagem. O guia era uma bosta! Quando ele se deu conta da besteira que fez, pediu desculpas, disse que ia comprar outro – Peloamordedeus, naaaaao. Dinheiro não nasce em árvore. A gente se virou com aquele mesmo e com a internet.
Fiz anotações no guia, rabisquei o mapa, fiz um roteiro dia-a-dia de toda a viagem, programei os passeios pelo tempo e pela disponibilidade dos bilhetes. Tudo certo.
Ele pegou emprestado com o chefe dele um dicionário de frases em francês, com a advertência de que se caísse no rio Sena ele teria que pular e buscar, pq era um dicionário de estimação.
Você quer saber mesmo essa parte da história???
Ele esqueceu o guia com todo o roteio da viagem e o dicionário do chefe, dentro do avião em NY, na hora da troca da aeronave. E só lembrou quando já estávamos no outro avião.
Eu estava lidando bem com essa perda, até eu descobrir que o passeio de amanhã não vai até o bairro da Amelie. Aí o copo transborda…
Na hora da raiva, tem duas opções: chutar o pau da barraca e rodar a baiana … ou virar pro lado.
Virar pro lado parece uma boa opção, mas não é. Só joga a poeira pra debaixo do tapete, acumula mágoa, rancor. Eu tô um poço de mágoa nesse momento. Me armando toda mentalmente, calculando as culpas…
Formula perfeita pro câncer, ulcera, gastrite, infelicidade, solidão, angustia.
Já é quase manhã, eu sem conseguir dormir (um problema que não constumo ter, mas o fuso horário me atrapalhando toda). E ele tá roncandooooooooooooooooooooooooo. PTQP!!!!!
No meio de toda essa raiva, me surge como um sopro na consciência a palavra … perdoa…
Não tem como não chorar.
Merda!!! Porque a única solução é tão difícil??? Ele tá errado, Tá zuando tudo!!
Perdoa. Ele te ama.
Merda!!!
,,.
Ele te ama e você também.
Comecei a chorar e fui escrever.
Cultivar um relacionamento de 14 anos (4 de namoro e 10 de casamento) não é tarefa para os fracos, mas a força vem Daquele que tudo pode e me fortalece.
Sem perdão, não tem comunicação, tem culpa. Pra perdoar a gente tem que se quebrar, ver o lado do outro, amar imensamente, abrir mão do orgulho. É uma guerra interna.
“Ah, mas e se ele gastar o dinheiro todo?” Perdoa. “E se ele fizer de novo?”” Perdoa de novo. Ou você acha que você é perfeita? – Ca.ram.ba. Não sou!
Não vou acordá-lo agora. Mas amanhã é um novo dia. É dia de perdoar e desfrutar de uma viagem linda do lado de quem eu amo, no lugar dos meus sonhos, e nada vai atrapalhar.
Não tem guia? A gente cria outro trajeto, pergunta, consulta, se vira… gastou tudo? A gente passa aperto juntos.
Pra perdoar tem que estar disposto a perder, pra ganhar.
Lembra da fórmula lá em cima cansaço + fome + expectativa?
Fome e cansaço é fácil de notar. Mas a gente não costuma dar bola pra expectativa como um aspecto perigoso. Mas ele é um veneno.
Tem gente que casa com expectativa de ser feliz, se dá mal. Você só vai ser feliz se fizer o outro feliz. E vice-versa.
Eu viajei com tanta expectativa e acabei de perceber a presença venenosa dela, como uma bagagem pesada, tentando me vencer pelo cansaço.
Mas eu decidi largar essa bagagem, vou deixar pra trás. Por que, assim como nos relacionamentos,  Paris vai ser péssima se eu colocar sobre ela toda a minha expectativa fantasiosa de perfeição e deslumbramento. Agora nada pode me decepcionar. #livre

Gratidão é uma escolha. E eu acabei de decidir, mesmo na prática sendo muito mais difícil que na teoria, substituir a expectativa por gratidão.
Aconteça o que acontecer serei grata e com coração livre para desfrutar o que vier.

Tá decidido.

Gratidão + perdão = liberdade

Esse é um diário de viagem, mas que fala muito mais de sentimento, vivência e aprendizado. Hoje reaprendi a perdoar e a refazer a rota com menos expectativa e mais amor.O que mais realmente importa na vida?
Continuem acompanhando os próximos capítulos.