Como as roupas nascem?


Não existe mágica! As roupas, assim como os bebês, não vêm em cegonhas.


Nossa geração compra carne na bandeja sem nunca ver um boi, frango temperado sem nunca ter visto um ciscar, então não é de se estranhar que a gente não pare pra pensar de onde vem a roupa que vestimos.

É tudo tão mágico. Prateleiras coloridas, ar condicionado, lojas aromatizadas, vendedores sorridentes. Mas o que acontece, de fato, por trás desse universo encantado do consumo?

Alguns anos atrás rodou na internet a notícia de uma mulher que comprou um vestido numa loja popular no Reino Unido, e na etiqueta encontrou um pedido de socorro: “Somos forçados a trabalhar por horas exaustivas”. Veja a matéria. 
Nessa hora que a gente lembra que existe vida do outro lado!

A cadeia têxtil é gigante, envolve tantas pessoas  que se você parar pra pensar quantas mãos fizeram (pegaram na) sua roupa, ela jamais iria com a etiqueta pro seu guarda-roupa, sem antes passar pela lavanderia.

É mais ou menos assim: 


Antes da confecção –  que posso descrever com propriedade por ter trabalho mais de 10 anos nele –  existe a fiação e a tecelagem. Tecido pronto, estampado, amaciado, revisado, então começa a etapa de desenvolvimento do produto e nela envolve basicamente estilista, modelista, cortador, piloteira, modelo de prova. Ok, peça piloto aprovada. É hora da produção: ampliar a modelagem, cortar tecido, etiquetar e distribuir para oficinas de costuras.


E para você que pensa que aquela roupa que a gente compra naquela loja chique, por um preço exorbitante, é costurada num ateliê monumental, paredes de mármore brancas, costureiras uniformizadas, sendo acompanhadas por um estilista gay baphônico, com uma fita métrica na mão revisando peça por peça…  AlôÔô! Tá na hora de acordar pra realidade.


Sua roupa é costurada na periferia. Ela sai da confecção, onde foi feita apenas a criação de uma peça piloto, em sacos pretos e vai para milhares de pequenas oficinas que funcionam informalmente.

Pra você visualizar melhor vou descrever uma dessas oficinas:
Imagine um barracão de 2 cômodos e banheiro. No quarto, ao lado da cama, fica a geladeira, no outro lado um berço. No outro cômodo, várias máquinas de costura, sacos de tecidos cortados sob a mesa (quando existe mesa). Numa cadeira, peças já montadas. Num canto, uma pia e ao lado um fogão. 

Estou descrevendo um cenário que já vi inúmeras vezes. E nele uma família inteira trabalha noite e dia para entregar as peças que costuraram, com muita sorte, por R$10 cada. Existem oficinas maiores, que empregam informalmente outras pessoas, provavelmente sendo exploradas.


Peça costurada volta para confecção para revisão, passadoria, embalagem, distribuição e enfim, chega no mundo encantado das araras.


Na minha confecção, atualmente fechada, tive um funcionário, costureiro boliviano, excelente. Percebi que ele nunca saía da máquina de costura no seu horário de almoço e fui saber o motivo: ele tinha medo de ser preso ou de levar um tiro na rua. Fiquei chocada ao saber da história daquele ser humano que depois de ser escravizado ao vir para o Brasil, vivia amedrontado. Poderia contar muitas outras coisas sobre a história dele e dos bastidores, mas o assunto aqui é você.

Conhecer a procedência de tudo que a gente consome é uma responsabilidade nossa. Podemos viver na ingenuidade do mundo encantado das lojas cheirosas ou entender um princípio básico do consumo consciente: Endosso.

Cada compra que você faz representa um endosso àquele lojista, produtor, fabricante. Quando você escolhe comprar dele e não de outro, você está apoiando todo o negócio, tudo que ele faz e acredita. É você que faz a roda dele girar!
Ao comprar um produto você pode estar apoiando um grande esquema, por exemplo, de exploração infantil, de trabalho escravo, abuso de animais, dentre muitas irregularidades.

Mas como consumir de forma consciente? 

A gente pode começar fazendo uma triagem daquelas marcas que você já sabe que não merecem seu endosso. 
Algumas, quando descobertas, alegam que terceirizam o serviço e não tem controle sobre o processo de produção. Como descrevi essa terceirização realmente existe, mas elas têm que ter total controle sobre quem e como é feito seu produto.
Em Dezembro de 2013 foi lançado um aplicativo, Moda Livre, para IOS e Android que faz uma classificação das marcas de acordo com suas irregularidades trabalhistas, inclusive escravidão. Leia sobre o aplicativo Moda Livre

É fácil colocar em prática?? Não! É difícil resistir? Simmmmm!


Algumas dicas:


– Busque na internet informações sobre o assunto. Comece buscando no google “marcas que utilizam trabalho escravo”, você vai se surpreender!!

– Duvide de marcas que oferecem preço muito baixo. Alguém saiu perdendo e, com certeza, não foi o lojista.
– Atenção para grandes redes de varejo, fast fashion. Uma das práticas é exigir preços baixos por grandes quantidades. O negócio vira uma cadeia esmagadora e a corda arrebenta no lado mais fraco: pessoas trabalham exaustivamente por um valor baixíssimo.
– Tá escrito made in China na etiqueta?  Olha mais uma vez pra roupa e imagine um chinezinho sem dormir, pregando aquele botão.
– E O PRINCIPAL: Apoie os pequenos que produzem de forma criativa, gerando mão-de-obra local. 


(Artigo original de 11/07/2014)


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